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Há pouco mais de um mês comemorou-se o Dia Internacional da Mulher. Houve muitos eventos, solenidades, discursos, festas. Foram feitos todos os tipos de discursos: meigos, politicamente corretos, vazios de sentido, equivocados, para ganhar votos (e acabar perdendo), e alguns somente para o discursante arejar o céu da boca, ou seja, falar por falar. Houve, em geral, muitos discursos de governantes e pouca política de atenção efetiva aos direitos da mulher. Enquanto rolavam discursos e homenagens, muitas justas, algumas mulheres continuaram sendo física e moralmente agredidas. Humilhadas em público, inclusive. Das humilhações em público, quero registrar a sofrida pela senhora Silda Spitzer.
Silda é a esposa do ex-governador do Estado de Nova Iorque, Eliot Spitzer, aquele que renunciou porque foi descoberto usando dinheiro público para pagar suas fornicadas com garotas de programa. Quando a vi na televisão, ao lado do marido, com cara triste e abatida, lembrei-me de uma outra senhora, esta brasileira, que sofreu humilhação semelhante. Falo de Verônica Calheiros, esposa do senador Renan Calheiros. Ambas, cada uma em seu momento, permaneceram estóicas perante tamanha adversidade. Imagino o que passava naquele momento no coração de cada uma delas, e imagino o futuro: jamais enxergarão seus maridos como enxergavam. Não são as primeiras mulheres a viver tal situação, e infelizmente não serão as últimas. Por que elas se submetem a tal humilhação?
Se a pessoa traída fosse um homem, como conhecedor da "espécie", posso afirmar: jamais um homem permaneceria, em situação semelhante, ao lado de uma mulher, caso o papel fosse invertido. E por que a mulher fica? A cultura machista e a cultura de poder do homem o "obriga" a demonstrar que é homem, que é "macho". Para sê-lo, sob essa ótica, precisa ter muitos casos, com muitas mulheres. Como disse o macho Collor, com "aquilo roxo".
Nos Estados Unidos, há um maior moralismo do que no Brasil. Por isso, em tais situações, em geral, o político renuncia. No Brasil, nem isso acontece. A história da política brasileira está cheia de casos semelhantes ao de Renan. No entanto, nenhum levou à renuncia do mandato. Aliás, leva a comentários maldosos contra a mulher e elogios ao homem, que publicamente mostrou-se "viril".
Renan, Eliot Spitzer e tantos outros vão a público, fazem uma autocrítica, pedem desculpas e dizem estar expiando pelos seus erros ou pecados. Spitzer foi mais longe e disse que começou a expiar suas falhas particulares com a mulher, Silda e seus filhos, "e a curar a mim e a minha família". Mas qual é a doença da família? A família de Spitzer não está doente. Doente está a sociedade machista, cuja virulência (vírus do machismo) leva ao sofrimento os filhos e, principalmente, as mulheres. São elas que são vítimas de violência física, moral e psicológica. Elas é que são submetidas à humilhação pública.
A violência contra as mulheres é antiga. Trata-se do crime encoberto mais praticado no mundo. Quando as religiões colocam a mulher como um ser inferior e subordinada ao homem, legitimam a violência. Com a frase "homem não chora", somos educados para sermos duros, o que significa reprimir os sentimentos. Não se pode mostrar a emoção, o amor, a raiva, o afeto, a amizade, o ciúme, etc. Portanto, no conflito, não se pode chorar. Ou se reprime, ou parte-se para a violência. Como o homem fisicamente é mais forte, por que se reprimir?
Estatísticas dizem muita coisa, mas, no caso da violência contra a mulher, são insuficientes. Dão apenas uma idéia geral a respeito do problema. A maioria das mulheres não denuncia seus agressores por medo de represálias. Mesmo sem retratar a realidade, é importante citar o registro do Banco Mundial, que informa: a violência doméstica atinge de 25% a 50% das mulheres na América Latina. É muito lenta a mudança de cultura, mas seria bom os homens começarem a chorar.
* Dr. Rosinha, médico pediatra, deputado federal
criado por Tania Rocha
10:46:31